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Arnaldo Saraiva - O Nome de Camões na Literatura de Cordel do Brasil
12.00€
Pelas puras verdades ou fábulas inventadas da sua vida, ou pelo engenho e arte da sua obra, Camões ou o nome de Camões irradia energias inesgotáveis de mito universal, ele que foi também um criador de mitos (o Velho do Restelo, o Adamastor, Pedro e Inês, a ilha dos Amores...).
Claro que é no mundo lusíada ou lusófono que esse mito tem maior fortuna, se, como disse Machado de Assis, em mares aspérrimos Camões salvou «língua, história, nação, armas, poesia». Tal fortuna é quase só vista nas áreas da chamada alta cultura, que até quando o promoveu a símbolo maior de Portugal quase esqueceu as suas cantigas e vilancetes e a sua aura popular.
Por sinal foi do Brasil, ou do seu Nordeste, que ao longo das últimas décadas vieram as melhores provas da permanência popular de Camões. Este nome figura em títulos e é nome de heróis ou anti-heróis de folhetos de cordel. Sabendo pelos gregos como os mitos conhecem com o tempo variações simbólicas, não estranharemos que por vezes o Camões nordestino só no nome – no apelido, sintomaticamente – lembre bem o poeta português. Mas o hilariante pícaro, malandro ou «amarelinho» talvez tenha nascido da memória que não esqueceu um homem superior, na aventura, no amor e na arte. O Camões de cordel vale-se da esperteza, até verbal, para sobreviver e se rir dos males e dos poderes que o ameaçam. O nome de Camões na obra de poetas populares do Brasil implica de algum modo uma homenagem, bem clara nos versos de um dos melhores, Patativa do Assaré: «Vejo a minha pequenez, / Ante o bardo português.»